• Rodrigo Kmiecik

As ruínas do gótico na ficção de Karl Edward Wagner


Aos que apreciam o legado de grandes escritores do fantástico como Robert E. Howard e Michael Moorcock, o nome de Karl Edward Wagner talvez não seja tão desconhecido. Entre diversos trabalhos, Wagner criou Kane, o místico espadachim, que figura ao lado de Elric e Conan como um dos maiores personagens de fantasia heroica da história. O nome Kane soa como a pronúncia em inglês de Caim, o personagem bíblico do Velho Testamento, que matou seu irmão Abel e deu origem à linhagem de todos os assassinos do mundo na mitologia judaico-cristã. Inspirado por esse personagem trágico, Wagner criou seu Kane, um homem taciturno de olhos azuis, cabelo e barba ruiva, guerreiro e exímio feiticeiro. Além de tudo, Kane é um guerreiro imortal, e por isso sua moralidade é diferente da de qualquer ser humano comum que viva sob os preceitos da morte, e sob as consequências de seus atos numa vida tão curta.

Em uma entrevista de 1981, Karl Edward Wagner afirmou que Kane “é certamente uma figura mais demoníaca do que heroica.” O autor buscava criar um personagem inescrupuloso, de moralidade pouco definida ou sequer compreensível. Isso reflete, em partes, uma carga advinda do gótico, que costumeiramente impunha maldições ou fantasmas do passado aos personagens; entretanto, com Kane, não há culpa.

O gótico foi um dos movimentos mais influentes na literatura. Ann Radcliffe foi uma das autoras mais populares de seu tempo, e os romances de Horace Walpole, Matthew Lewis, William Beckford, e tantos outros, também alcançaram grande popularidade, influenciando muitas gerações de autores. Mais que os próprios autores de fantasia ou espada e feitiçaria, que são costumeiramente associados aos livros do espadachim Kane, a principal fonte de inspiração para Wagner foi a literatura gótica.

O próprio Karl Edward Wagner definiu seu trabalho como “gótico ácido”. A definição, fruto de uma brincadeira com seus amigos, misturava o conceito de romance gótico com o ácido LSD dos anos 60 e 70, quando os livros de Kane foram escritores. Wagner explicou: “o que eu estava dizendo é que meu trabalho é uma tentativa de escrever ficção utilizando-se das noções góticas de atmosfera sombria, humor pesado, acontecimentos sobrenaturais, mas, ainda assim, com uma abordagem técnica moderna. Eu a chamei de ‘ácida’ porque, na época, a inspiração vinda com o uso do LSD e algumas outras coisas começavam a cristalizar as imagens que eu buscava reproduzir em minha escrita. No romance gótico não existe exatamente um herói; certamente não a noção moderna de herói na ficção. O herói-vilão é o protagonista e, ao mesmo tempo em que ele é mostrado como uma pessoa admirável por suas qualidades heroicas, por outro lado ele é uma pessoa má de acordo com a moralidade cristã. Eu estava bastante interessado no romance gótico. Gostava deles porque eram excelentes histórias de horror, e porque se enquadravam, geralmente, em um background medieval. Eu me vejo mais como um escritor de histórias de horror do que um escritor de fantasia heroica. O que eu tentei fazer em Kane foi escrever histórias de horror gótico. Portanto, “gótico ácido” foi uma tentativa de combinar gêneros diferentes, motivações diferentes, conceitos diferentes, culminando em uma combinação que não existia antes, usando ideias modernas e técnicas experimentais de escrita.”

O ideário gótico reverbera na obra de Wagner de diversas maneiras. Em primeiro lugar, temos a questão moral, que é muito importante no gótico. De Walpole à Brockden Brown, questões morais, éticas e religiosas perpassam os principais dilemas dos personagens. Partindo de todo o pressuposto fantástico da imortalidade de Kane, Wagner lida com a moralidade num mundo cinzento, onde, como ele mesmo afirma, as lutas geralmente são travadas entre um mal menor e um mal maior, nas quais Kane toma parte em seu próprio benefício. Ainda que Elric de Melniboné tenho aspectos imorais e frequentemente cometa atrocidades, ou cogita cometê-las, o personagem de Michael Moorcock é sempre trazido à reflexões sobre seus atos, e o universo, o próprio balanço entre Ordem e Caos, parecem puni-lo de certa maneira com tragédias. Kane, por outro lado, representa o personagem típico da fantasia sombria: mata sem escrúpulos, age somente em prol de seus próprios interesses, sem culpa ou remorso, reverberando um sentimento niilista que parece envolver a vida eterna.

No ensaio The Once and Future Kane, de Karl Edward Wagner, o autor afirma que uma das principais influências em seu trabalho é o romance gótico Melmoth the Wanderer, de Charles Maturin. Além de sintetizar diversos temas centrais do estilo gótico, Maturin traz um dos personagens mais interessantes de todo esse filão literário. Melmoth, o personagem, é um eco de Fausto. Fruto também do romantismo, Maturin dá ao seu personagem aspectos que se sustentam apenas nos valores negativos da humanidade. Melmoth busca a tragédia e o horror das vidas alheias em busca de sua própria salvação. Aqui reside um dos maiores paralelos com Kane, e a ideia de um vagante solitário atrás das chagas do mundo — no caso de Wagner, muitas vezes impondo essas chagas — certamente foi central no desenvolvimento da ficção de Wagner.

Além de toda a filosofia e a especial atenção para o lado horrorífico da existência humana, muito trabalhados pelo romance gótico, Karl Edward Wagner ainda vai recuperar uma série de elementos visuais e folclóricos frequentemente explorados na literatura gótica, nos bluebooks e nos penny dreadfuls. Como Wagner mesmo afirmou, “em Death Angel’s Shadow eu inseri vampiros e lobisomens góticos em uma história de fantasia épica. Ao invés de escrever uma típica história de lobisomem se passando em Los Angeles, escrevi uma história de lobisomem dentro de um cenário de fantasia heroica, com características góticas.” Portanto, o elemento imagético do horror é preponderante nas histórias fantásticas de Kane, que também trazem fantasmas, monstruosidades, castelos abandonados em ruínas, entre tantos outros.

Wagner também discute temas e conceitos próprios da espada e feitiçaria escrita antes dele. Em contos como Two Suns Setting, toda a discussão entre civilização e barbárie, amplamente explorada por Robert E. Howard nas histórias de Conan, é retrabalhada e repensada por Wagner, mostrando, inclusive, grande consonância com o autor texano. Entretanto, em outros pontos, Wagner ofereceu diversas mudanças e inovações para o gênero, algumas em forma de sátira. Uma delas pode ser vista no conto Undertow, no qual o herói é um bárbaro grande, loiro e destemido, que vai à uma cidade e se apaixona por uma bela garota. A garota é capturada por um feiticeiro maligno, e o bárbaro tem de salvá-la. E aí vem a genialidade de Wagner: nesse caso, o tal feiticeiro maligno é Kane, e as noções de heroísmo são suprimidas pelo mal absoluto.

O triunfo do mal sobre o bem ou sobre qualquer heroísmo é um tema central na ficção de Karl Edward Wagner, que reverbera muito mais noções típicas do horror do que de qualquer obra de fantasia. Wagner também escreveu pastiches de Robert E. Howard, sendo eles The Road of the Kings, uma história de Conan, e Legions from the Shadows, uma história de Bran Mak Morn. Além disso, Wagner escreveu diversas histórias de horror e trabalhou como editor na nossa xará, Carcosa Press, bem como editou a série de livros The Year’s Best Horror Stories, uma coleção anual publicada pela DAW Books. Venceu duas vezes o British Fantasy Awards (na categoria Melhor Conto): em 1975 pela história Sticks, e em 1976 com Two Suns Setting.

Two Suns Setting, inclusive, é a única obra de Karl Edward Wagner traduzida para o português, e isso representa uma grande lacuna. O conto foi publicado na antologia Crônicas de Espada e Magia, da Arte & Letra, com tradução de Cesar Alcázar.

Karl Edward Wanger e sua esposa, Barbara Ruth Wagner, moravam em Chapel Hill com sua pastor-alemão Kelly e seu gato preto Shakespeare. Quando não estava escrevendo, Wagner apreciava filmes, armas, carros, futebol, rock, viagens à pesca e uísque. Wagner faleceu em outubro de 1994, aos 48 anos. Seus livros continuam sendo reimpressos lá fora, e muitos fãs ainda guardam antigas cópias de sua obra, mantendo acesa a chama azulada dos olhos de Kane, e mantendo vivo o grande legado de Karl Edward Wagner.


A entrevista citada no post pode ser acessada na íntegra aqui.

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